sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A grande descoberta 2012!




"... Sem tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em lugares onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte... Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.” 

Rubem Alves

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Olimpíadas do Rio 2016 - O Primeiro Susto

Na "viagem" alucinógena de Cao Hamburguer e Daniela Thomas, uma zorra sem realismo nem simetria, tentava mostrar nossas Escolas de Samba, nossos Índios e nossos Caboclos de Lança. . Há alguns dias eu e Nadja vínhamos nos divertindo tentando imaginar como seria a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016. A parte com a qual mais sorríamos era quando tentávamos selecionar os cantores que se apresentariam. Imaginávamos Zeca Pagodinho de chinelão e bermuda segurando um copo de cerveja; Ivete Sengalo com seu “suvaco suicida”, aos pinotes, montada num trio elétrico com centenas de abadás numa dança sensual exaustivamente ensaiada no carnaval daquele ano; ou o "rei" Roberto Carlos, com seu paletó azul e suas ombreiras que medem metro e meio de uma a outra. Daqui a quatro anos como estarão artistas do nosso primeiro time como Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo? Ah! Temos Gilberto Gil, lembrávamos aliviados. . Imaginamos a festa começando com as imensas caravelas Santa Maria, Pinta e Ninã deslizando sobre trilhos camuflados, enquanto nossos índios do Xingu, quase nus, assustavam-se com aquele trambolho do qual desciam seres fedorentos, ávidos por sexo, e capazes de doar espelhos em troca de uma rapidinha atrás da moita mais próxima. . Em seguida, com as magníficas caravelas ainda estacionadas, nossos índios ensaiariam uma dança tradicional com aquele canto de poucas notas musicais mas de uma beleza sem par. . Então as caravelas retornariam levando ouro e espécimes vivos de índios, flora e fauna da nova terra, enquanto os nativos agora eram obrigados ao trabalho escravo, e a fazer sexo como nunca haviam imaginado ser possível. . Outras caravelas, sem o brilho das primeiras, agora chegavam carregadas de negros africanos - príncipes e súditos - que, sob o açoite de chicotes no tronco, dividiam com os indígenas os serviços mais pesados, enquanto as suas mulheres púberes eram submetidas juntamente com as indígenas da mesma idade aos abusos nas moitas. . Tudo isso seria apresentado em coreografia exuberante, sem sexo explícito, mas com cenas fortes sobre o trabalho escravo e os abusos próprios dos colonizadores. . Em seguida, a fuga dos indígenas para o interior do país e a formação dos quilombos seriam mostradas sob o som atroador de centenas de negrões baianos da Timbalada, com suas pinturas nos braços, tronco e rosto, enquanto batiam as imensas alfaias sacudidas acima das suas cabeças. Nos quilombos, a luta, a capoeira e os tambores do candoblé, antecipando um desfile majestoso de imensos orixás artisticamente estilizados. . Em imensas alegorias viriam as comidas que os índios e os negros agregaram às dos europeus e enriqueceram nossa cozinha. . Do Norte, os Bois de Parintins, do Sul as tradições gaúchas, do Nordeste o Maracatu Rural com seus Caboclos de Lança super coloridos, carregando às costas a canga com seus imensos chocalhos enquanto empunhavam suas lanças e mostravam um misto de dança e luta. Ainda teria espaço para o frevo pernambucano e os imensos bonecos de Olinda. . O samba carioca e paulista com passistas maravilhosos e Porta Bandeiras e Mestres Sala teria seu papel de destaque, mas sem expor nossas mulheres à nudez que tanto vemos no carnaval, para tentar melhorar a imagem delas no exterior. . O nosso Rei Pelé chegaria com a Tocha Olímpica em uma réplica do 14 BIS que, após sobrevoar todo o estádio do Maracanã, acenderia a grande tocha que permanecerá acesa durante todos os jogos do Rio. . Ainda estávamos – como ainda estamos – pensando como seria essa grande tocha. Depois da que vimos em Londres, não pode ser qualquer coisa pensada às pressas. . Só nos restava aguardar os oito minutos que o Brasil teria para convidar o mundo para o Rio em 2016, e aí veio o primeiro susto, que esperamos seja o único dessa Olimpíada que já começou. . Com criação de Cao Hamburguer e Daniela Thomas, o que vimos foi um imbróglio da pior qualidade, salvando-se apenas a entrada de Marisa Monte cantando (ou dublando) a Bachiana Brasileira número 5, como se fora Iemanjá. . O gari Renato Sorriso, só conhecido no Brasil e especificamente no Sambódromo do Rio, chegou com um imenso vassourão, deixando o mundo sem entender o que ele pretendia varrer: se a corrupção do Brasil ou os porões do Palácio de Buckingham. Um nome excelente, sem dúvidas, para a abertura dos jogos no Rio, desde que corretamente inserido. De qualquer forma, nos deixou esperançosos de que ainda poderíamos ter um show. . Em seguida um grupo de percussão – só identificados como tal quando o desfile já havia terminado – com imensos tamborins desajeitadamente erguidos sobre suas cabeças, não repercutia nada. Um desfile de dezenas de pessoas com folhas de 2 metros e meio sobre as cabeças tentaram formar figuras que nada representavam, por mais que nos esforçássemos para decifrá-las, com a boa vontade de quem queria que já comessássemos dando um verdadeiro show. . Essas folhas, em seguida, foram deixadas desordenadamente sobre a rampa, e só ficamos sabendo que queriam formar os desenhos da calçada de Copacabana porque o locutor da TV Record chamou a atenção dos telespectadores. . Pretensos Caboclos de Lança, com a pele pintada de dourado como todos os seus adornos, mas sem as cangas dos chocalhos nem suas performances características, subiram a rampa em desembestada correria como se espantalhos fossem. . Os nossos majestosos indígenas com seu vigor, sua dança enigmática e seu colorido exuberante, apareceram desprovidos de todas essas belezas, com cocar e colar em neon (ou led), em monocromático verde limão, só sendo identificados como índios do Brasil também após explicação do apresentador. . Os excelentes Seu Jorge e o rap BNegão foram lançados às feras, seguidos da modelo Alessandra Ambrosio, que representou as mulheres brasileiras, como se estas fossem um produto de exportação. . O Rei Pelé subiu apenas metade da rampa, disfarçado sobre um chapéu horroroso e um paletó que parecia ter sido pedido emprestado a algum brasileiro residente em Londres sem o devido conhecimento das autoridades locais, para em seguida desfazer-se deles e mostrar a camisa 10 da nossa seleção de futebol. . Algumas idéias fracas, apresentadas de forma bizarra e burra. . Uma vergonha, sob todos os aspectos. . Se Cao Hamburguer e Daniela Thomas só tínham oito minutos para a apresentação, não deveriam tê-los utilizados para fazer propaganda do que poderiam mostrar na abertura de 2016, e garantirem aquele contrato. Quiseram mostrar muito em pouco tempo, e o fizeram de forma atabalhoada, sem cor, sem ritmo, sem brilho, sem nada. . Um vexame. . Que escolham um criativo diretor, com raízes fincadas em território nacional, e não quem não sabe se estaciona no Rio, São Paulo ou Nova Yorque; que este se cerque de outros grandes artistas regionais de comprovada criatividade e conhecimento profundo da cultura do nosso povo. O resto ficará por conta dos que fazem as alegorias do carnaval carioca, e muuuuiiiito ensaio... muuuuiiiiiito ensaio. . Ficamos assustados. .

Vôlei de ouro

"A derrota da seleção masculina do vôlei, neste domingo 12, foi um dos mais amargos reveses que já assisti em Olimpíadas. Quem acompanhou as partidas contra a Argentina e a Itália sabe o quanto o time de Bernardinho merecia a vitória, principalmente por causa dos desfalques de Vissotto e Dante, na última hora, e das recuperações incompletas de Giba e Ricardinho. Wallace e Bruninho caminhavam a passos largos para se tornarem os grande heróis da conquista: chamados na hora certa, davam conta do recado e brilhavam como nunca. Faltou, literalmente, combinar com os russos – que no terceiro set mudaram a estratégia, atuaram como kamikazes e deram o chamado nó tático que determinou o destino da competição: 3 a 2 de virada quando o Brasil tinha três pontos na frente para matar o jogo no terceiro set… Não tenho dúvidas de que os jogadores de vôlei mastigariam a rede para ficar com o ouro. No futebol, mal sujariam os calções…Foto: AFP O Brasil, como na véspera havia acontecido no futebol, perdia um ouro praticamente certo. E este é o único ponto em comum entre as duas derrotas. Para a seleção de vôlei, aquele era realmente o jogo da vida. O último do vitorioso Serginho, que há pelo menos uma década tem dado o sangue e a vida para a equipe. Quem viu a explosão dos atletas – os olhos arregalados a cada ponto conquistado, a seriedade na hora da orientação tática, a concentração e o choro no apito final – testemunhou o golpe num time que estava vivo, vacilante mas vibrante, que acabava de tomar uma entortada do destino. Essas são as derrotas mais doídas que se pode sofrer." CartaCapital Sociedade Matheus Pichonelli Olimpíadas 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012





Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Fernando Pessoa

Mais uma maravilha apresentada por minha filhota =)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Freud: "é impossível eliminar todos os nossos sintomas sem perder junto com eles, aquilo que representa nosso estilo de ser, aquilo que nos aproxima da obra de arte e nos afasta de sermos mera cópia de um original previamente definido, higienizado, polido e considerado normal."

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Liberdade de Imprensa


Por Izaías Almada


Liberdade de imprensa é chantagear políticos…
Liberdade de imprensa é acusar sem provas…
Liberdade de imprensa é espionar celebridades…
Liberdade de imprensa é defender o cartel da informação…
Liberdade de imprensa é fazer lobby em favor próprio no Congresso Nacional…
Liberdade de imprensa é fazer escutas telefônicas ilegais em Londres
Liberdade de imprensa é inventar escutas telefônicas ilegais no Brasil…
Liberdade de imprensa é extinguir o contraditório…
Liberdade de imprensa é criar fichas falsas…
Liberdade de imprensa é criar factóides para a oposição…
Liberdade de imprensa é a oposição repercutir os factóides…
Liberdade de imprensa é acusar os blogs democratas de “chapa branca”…
Liberdade de imprensa é aceitar e barganhar anúncios do governo…
Liberdade de imprensa é especular hipocritamente com a doença alheia…
Liberdade de imprensa é testar hipóteses…
Liberdade de imprensa é assumir-se como partido político de oposição…
Liberdade de imprensa é denunciar a corrupção dos adversários…
Liberdade de imprensa é fazer vistas grossas à corrupção dos amigos…
Liberdade de imprensa é acusar Chávez, Fidel, Morales e Lula…
Liberdade de imprensa é defender Obama, Berlusconi, Faiçal, FHC…
Liberdade de imprensa é banalizar a violência…
Liberdade de imprensa é disseminar o preconceito e o racismo…
Liberdade de imprensa é vilipendiar, caluniar e fugir para Veneza…
Liberdade de imprensa é inventar bolinhas de papel…
Liberdade de imprensa, no Brasil, é para inglês ver…
Liberdade de imprensa na Inglaterra é para brasileiro aprender…
Liberdade de imprensa é divulgar partes do “relatório” do terrorista norueguês…
Liberdade de imprensa é ocultar o direito de resposta ao MST…
Liberdade de imprensa é manipular a opinião pública…
Liberdade de imprensa só vale para o dono do jornal, do rádio e da televisão…
Liberdade de imprensa é para quem paga mais…
Liberdade de imprensa é apoiar as invasões americanas ao redor do mundo…
Liberdade de imprensa é escamotear os genocídios no Iraque, no Afeganistão…

Liberdade de imprensa é apoiar greve de fome de um único dissidente cubano…
Liberdade de imprensa é jogar sujo contra governos progressistas…
Liberdade de imprensa é acusar sem oferecer o direito de defesa…
Liberdade de imprensa é que nem mãe: só a minha é que presta…
Liberdade de imprensa é a liberdade de se criar novas máfias…
Liberdade de imprensa é dar dicas sigilosas para concorrências públicas…
Liberdade de imprensa, às vezes, se compra com 500 mil dólares…
Liberdade de imprensa é aquela que só vale para os apaniguados…
Liberdade de imprensa é ser arrogante com os pequenos…
Liberdade de imprensa é bajular os grandes…
Liberdade de imprensa é difamar celebridades vivas…
Liberdade de imprensa é enaltecê-las depois de mortas…
A Liberdade de imprensa, tal qual é defendida e praticada nos dias de hoje pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira, é o apanágio dos ressentidos e a nova trincheira dos hipócritas…


Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).

sexta-feira, 9 de março de 2012













Dizem que a rosa simboliza a  “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis. 
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas.  Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros , precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger.  Mas, bem,  segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro . No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro .Este tipo de crime também aparece com frequência  na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais . No entanto,são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas . São elas que “amam demais”,não os homens .
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata . Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”.  A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido  no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior . Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.  Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países . As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas.  Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres . E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…).  Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte.  Os anúncios e ensaios de moda glamurizam  a violência  contra a mulher . Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas  de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio  , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu..”.

Sinto-me especialmente feliz por conseguir me indignar frente a coisas simples e relativamente bem aceitas pela sociedade. Um exemplo são os tradicionais concursos de miss.

Quantas mulheres, ao longo da história, dedicaram suas vidas a combater o machismo, a conquistar o espaço que temos hoje. Mulheres que viveram e enxergaram além do seu tempo e, por isso, foram estigmatizadas, hostilizadas e sofreram todas as "sanções sociais" possíveis.

Hoje, procuramos nos qualificar profissional e intelectualmente. Aprendemos idiomas estrangeiros para alcançar novas culturas e novas oportunidades - não, apenas, por ser obrigação de uma moça fina. Batalhamos, todos os dias, no mercado de trabalho, para receber, no mínimo, o mesmo salário que os homens, ao executar o mesmo trabalho. Brigamos em casa para que nossos companheiros dividam as tarefas domésticas e, consequentemente, compatilhem conosco o "terceiro expediente". No trabalho, elogios e assédio ainda se confundem e as dúvidas sempre pairam sobre quem não se submete. Afinal, é mais fácil encontrar uma subalterna vadia, do que um chefe tarado.

Nosso corpo é só nosso e, por isso, temos que brigar, ainda, com a Igreja e com o Estado, para que compreendam isso e nos permitam cuidar dele como nos convenha. Por falar em corpo, temos mesmo que cuidar dele muito bem, porque há grandes chances de sermos discriminadas, caso estejamos muito distante dos padrões de beleza. Quantas são admiradas por serem chefes de família, por criarem seus filhos e serem mães e pais ao mesmo tempo? Tenho a certeza, também, de que hoje as mães sonham que suas filhas ocupem, em igual quantidade e qualidade, cargos de chefia, diretorias, presidências. Poucas décadas atrás, o principal anseio das mães para felicidade de suas filhas era mais difícil de alcançar: que fizessem um bom casamento (seja lá o que isso significasse), tivessem muitos filhos e fossem felizes para sempre.

Em meio a todo esse contexto, vemos concursos de beleza de todo tipo. Miss disso ou daquilo, musa, garota, rainha, princesa. Desfilam, dançam, respondem abobrinhas, coisas ridículas e medíocres ou, no mínimo, memorizadas e falsamente vomitadas ao microfone. São ridicularizadas, servem de chacota, seja por serem bonitas e terem falado absurdos, seja por não cumprirem com os padrões - locais ou "universais" - de beleza imposto nos concursos. No final, a vencedora ganha uma faixa, um cetro e uma coroa. Acena doce e passivamente à multidão, chora de emoção, agradece, vai embora. Em resumo, representa tudo o que sempre nos tentaram impor e que esbravejamos para não permitir. Aceitam pacificamente discriminação social e racismo evidentes em TODOS esses concursos, e assumem, tacitamente, que a beleza é o que uma mulher pode oferecer de melhor. Afinal, o que mais elas oferecem nesse concurso? Habilidades? Conhecimentos? Cultura?

Esse ano, o Miss Universo acontecerá no Brasil. Para quê? Não precisamos de uma rainha, temos uma presidenta eleita pelo voto direto. Já colocamos a faixa no peito de uma mulher que não é bonita, não é jovem, nem loira, alta e magra. Tem o corpo castigado por lutar pela democracia e pelo povo do seu país. Por não ser doce, dócil, passiva, submissa, tem fama de ser dura, fria, grossa. E, no Brasil governado por esta mulher, tantas outras morrem assassinadas por seus companheiros; morrem de parto ou de complicações por aborto inseguro; são violentadas e exploradas sexualmente; trabalham no campo e na cidade, em casas de família, na informalidade e não têm seus direitos trabalhistas respeitados. Para que uma rainha da beleza, se temos mais de 22 milhões de mulheres chefes de família. Em nossa História, recente e remota, temos tantas mulheres que nos orgulham e nos fazem acreditar que vale à pena lutar por um mundo melhor. Não, definitivamente não precisamos de títulos como esses.

Por tudo isso e em respeito às mulheres do Mundo, eu não assisto ao concurso de Miss. E você?

*Marília Arraes, vereadora do Recife pelo PSB

terça-feira, 6 de março de 2012

Catadora entra para Ufes com ajuda de livros econtrados no lixo



 No mundo todo, os países que mais avançaram foram os que se convenceram do poder transformador da educação. NoEspírito Santo, o repórter André Junqueira encontrou uma trabalhadora que também pensa assim.
A entrada para um universo cheio de novidades e conhecimento foi cercada de emoção. “Na hora que desci do ônibus e coloquei o pé direito, falei: ‘Meu Deus, estou dentro da Ufes’”, conta Ercília Mozer.

A nova aluna da universidade federal tem 41 anos. Ercília ajuda o marido a recolher sucata e vender para o ferro velho. Foram 20 anos longe da sala de aula. Até que ela viu, durante mais um dia de trabalho pesado, o anúncio de uma chance no muro de uma escola. “Na hora que olhei o cartaz estava escrito: ‘inscrição para o EJA’, que é educação de jovens e adultos”m, lembra.
“O sonho dela era se formar, então o que eu pude fazer foi falar para ela ir em frente”, diz o marido Everaldo Teixeira.
Ela seguiu adiante. Mas, de casa para a escola, na cidade de Serra, na Grande Vitória, era uma hora de caminhada. O filho pequeno não poderia ficar sozinho. Não era fácil para Breno. “Eu ficava cansado! Muito cansado”, confessa o menino.
A bicicleta acoplada ao carrinho para transportar sucata virou solução. “Quando eu comecei a pedalar, me senti muito feliz”, ela revela.

Ercília concluiu o ensino médio dividindo tempo entre o estudo e a lida de recolher sucata com o marido. Foi aí que ela percebeu que poderia ir ainda mais longe. Ercília e Everaldo encontraram livros de biologia, de matemática e muitos outros no lixo. Eles não quiseram saber de jogar fora essa oportunidade.

Foram madrugadas de estudo. Não teve livro sem proveito. “Por eu não ter acesso a esse mundo de internet, eu tive que contar com os livros”, destaca Ercília.

Nesta segunda-feira (5), a aluna do curso de artes plásticas na federal do Espírito Santo se juntou aos outros calouros.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Separação



Saímos do cinema com a certeza de que, para um excelente filme, bastam uma excelente idéia, alguma técnica sobre todas as minúcias dessa arte, e muita, muita sensibilidade e confiança no próprio olhar, diferentemente das grandes produções norte americanas, que não dizem nada, além de serem extremamente repetitivas.


Nadja, minha mulher,  é filha de ator premiado internacionalmente, e eu, com o meu “Tâmara, a Rainha do Cacareco”, eternamente sendo roteirizado, somos quase viciados em cinema, e voltamos com nossa filha Kekel pra casa comentando que não ia dar pra simplesmente ligar a TV e assistir qualquer coisa.

Ainda bem que não passou nenhum trailer antes do filme.


De repente nos vemos dentro de uma copiadora que recebe um a um os documentos do casal que pede o divórcio. Em seguida eles fitam os olhos de um juiz que não aparece, através da câmera que se posiciona bem à frente de cada um dos dois, enquanto tentam convencê-lo de que seu motivo é o mais forte, o mais justo.


Somos nós aquele invisível juiz, e assim nos posicionaremos durante toda a trama, julgando as razões de cada um daqueles personagens, uns aprisionados a raízes religiosas e culturais, outros, como o casal em separação, a motivos pessoais e laços afetivos, sobrepujados por caprichos em não ceder aos pretextos do outro.

Um tema corriqueiro para nós ocidentais é realçado por questões morais inflexíveis, religiosas aprisionadas ao Corão sobre o qual ninguém corre o risco de jurar falsamente, mas, principalmente, por conta de um roteiro poderoso, atento aos detalhes imprescindíveis, e com um ritmo que nos mantém presos à tela.

 Asghar Fahardi – produtor, roteirista e diretor –  deixa no ar mais questões que respostas, levando à reflexão sobre os vários temas abordados, inclusive se uma criança, seja lá onde for, terá um futuro melhor no seu próprio país ou fora dele. É um filme também honesto, e em nenhum momento tenta induzir ou manipular o grande público a ser pró ou contra a cultura milenar do seu povo.  Por isso termina da única maneira que poderia terminar para ser o grande filme que é, em aberto, marcado pela dor da filha.

A separação estreia aqui, após ter conquistado o Urso de Ouro de melhor filme no último Festival de Berlim, além de dois Ursos de Prata para o conjunto das interpretações masculina e feminina e o Globo de Ouro de melhor filme de língua estrangeira. Nada mais justo. O novo trabalho de Farhadi, diretor do também ótimo “Procurando Ely”, é um drama poderoso, moral e social, e chega ao Oscar no próximo domingo, em "território inimigo", com força total.


Complemento em 27 de fevereiro de 2012.


O iraniano "A Separação" ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira ontem, domingo, durante a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em Los Angeles, nos Estados Unidos.


"Neste momento, muitos iranianos em todo o mundo estão nos assistindo e imagino que estão muito felizes", disse Farhadi ao receber o Oscar.

"Em um momento de cabo de guerra, intimidação e agressões trocadas entre políticos, o nome do país deles, o Irã, é falado aqui através de sua gloriosa cultura, uma cultura rica e antiga que tem sido escondida sob a poeira pesada da política", afirmou.

"Eu orgulhosamente ofereço esse prêmio para o povo do meu país, às pessoas que respeitam todas as culturas e civilizações e desprezam hostilidade e ressentimento", acrescentou, numa alusão clara à política beligerante norte americana.







Rodolfo Vasconcellos

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Minha eterna menina








Transborda em você, minha filha, um novo ciclo existencial


Novos sonhos
Novas cores
Novas formas e horizontes...


Estou muito feliz e emocionada, por constatar essa metamorfose metade legível, metade sereia.


Te amo!

16.02.2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Romário fica indignado com lentidão na Câmara







"“Espero que na minha próxima vinda a Brasília tenha alguma porra pra fazer. Ou será que o ano realmente só vai começar depois do carnaval? Têm greves acontecendo, pessoas morrendo e lojas sendo saqueadas. Nós políticos somos culpados mesmo! E olha que estamos em ano de eleição. Espero que alguma coisa realmente boa seja feita pelo nosso povo.”, desabafou."




É isso aí, Romário!



Governador da PB decreta luto oficial pela morte de Linduarte Noronha







O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, decretou nesta segunda-feira (30) luto oficial por três dias em todo o estado, em sinal de pesar pela morte do cineasta Linduarte Noronha. Neste período, os pavilhões nacional e estadual serão hasteados à meia-verga em todas as repartições públicas estaduais. Linduarte Noronha morreu na madrugada desta segunda-feira (30), aos 81 anos de idade, depois de sofrer uma parada respiratória. No decreto de luto oficial, o governador Ricardo Coutinho considera o cineasta, nascido em Pernambuco e radicado na Paraíba, "um incansável defensor da arte e das raízes deste estado e do Nordeste” e ainda um promotor do "resgate histórico e cultural da nossa terra e da nossa gente, fazendo-o um artista vigoroso dentro da Arte Popular Brasileira”. Linduarte Noronha foi repórter, crítico de cinema, procurador do estado e professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraiba, de onde se aposentou nos anos 90. Ele é um pioneiro do cinema local, tendo feito história no Brasil com o documentário em curta-metragem 'Aruanda', de 1960. O filme, que é sua principal obra, promoveu grandes modificações estéticas na cinematografia brasileira. Aruanda é tido como precursor do movimento Cinema Novo. Linduarte Noronha é natural de Ferreiros, em Pernambuco, mas constituiu toda a sua carreira na Paraíba. O filme aborda a fundação de um quilombo de escravos fugidos na Serra do Talhado e revisita a mesma região flagrando os descendentes de escravos que viviam de forma primitiva, vendendo potes de barro feitos de forma artesanal. O cineasta Linduarte Noronha também foi responsável pelo primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba. Em 1971 ele dirigiu o Salário da Morte, que em função de problemas na filmagem e poucos recursos não conseguiu fazer sucesso nos cinemas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Eduardo Coutinho canta o seu novo filme

Assistir a um filme de Eduardo Coutinho se tornou há algum tempo mais do que uma experiência imagética e sonora, mas também um confronto com o cinema como teoria – mais precisamente, com o campo do documentário. Isto porque a filmografia de Coutinho se confunde com a história do documentário contemporâneo brasileiro: Cabra Marcado para Morrer, é a gênese.
O fim e o princípio marca a crise desse método (no qual o filme que se procurava não acontece como se previa).
Finalmente, temos a reinvenção do campo e do dispositivo em Jogo de Cena e Moscou, trazendo para frente da câmera a encenação. F
Por isso, quem chega em As Canções pode a princípio se frustrar. Não, Coutinho não vai mais uma vez revolucionar o campo documental, não vai questionar a encenação, os jogos de poder entre entrevistador e entrevistado ou as nossas relações com a imagens. Ao contrário, o dispositivo do seu novo filme já estava presente em vários dos seus filmes anteriores, neste seus entrevistados cantam músicas que marcaram sua trajetória de vida de alguma forma.
O Jogo de Cena Coutinho pega emprestado também o cenário: um palco de teatro com a câmera enquadrando apenas uma cadeira, que será ocupada por seus personagens cantantes.
Ainda assim, e talvez justamente por isso, há muito não se assistia a um filme tão belo do diretor. Instalados no dispositivo, mergulhando na memória dos entrevistados e nas nossas memórias reviradas pelas letras da canções flui-se livremente pelo filme e por suas emoções – sem tantas amarras aos procedimentos do diretor. O próprio Coutinho parece esquecer-se de seus métodos para em uma deslizada ou outra cantarolar algum trecho de canção. As Canções acaba assim sendo um filme bastante singelo, que se interessa profundamente em ouvir e ver seus personagens. Mesmo os que só aparecem por pouquíssimos minutos, apenas para cantar uma música, ou um trecho, sem que possamos saber mais sobre a sua história. Ficam as vozes, quase sempre mais expressivas do que afinadas e os closes dos rostos. Nesse sentido, os rostos enrugados, marcados, são tão narrativos quanto as letras das canções e as histórias de vida.
Se em Jogo de Cena, o que perpassava as entrevistas era o universo feminino, aqui a temática – com poucas exceções é a dos relacionamentos amorosos. Se em Jogo de Cena, o que perpassava as entrevistas era o universo feminino, aqui a temática – com poucas exceções é a dos relacionamentos amorosos. Nesse sentido, um dos filmes que mais dialoga com As Canções seria a divertida comédia romântica musical de Alain Resnais, Amores Parisienses. Se o terreno de Coutinho fica entre o samba e uma MPB mais consagrada, com algumas brechas para as composições autorais, Resnais apela para a música pop francesa sem o menor medo de fazer os seus personagens soarem ridículos. O que ambos os diretores sabem é que nas nossas vidas o que há de mais íntimo, de mais doído, de mais saboroso, não deixa de caber perfeitamente na letra daquela canção que todo mundo conhece. Nossas memórias afetivas não deixam de ser a música que faz parte do imaginário coletivo, que todos sabem de cor. E não há do que se envergonhar – pois assim como Coutinho, nós espectadores também nos pegamos cantarolando baixinho.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Lembranças do Circo


"Isso mesmo! Quem não tem saudades do circo?

Quem não guarda, lá dentro,

no mais profundo da alma,

uma saudade menina

da primeira alegria no circo?

Quem não se lembra do primeiro velho palhaço,

roupas coloridas, frouxonas, cheias de longos babados,

espicha-encolhe, querendo cair toda hora?

Quem não se recorda do palhaço mais novo

fazendo negaças, pisca-piscando,

equilibrando como um joão-bobo,

piruetando em volta de si mesmo,

triste e alegre ao mesmo tempo?

Todos nós temos um universo de lembranças

de um novo ou de um velho circo,

dependendo de onde nasceu

e de onde viveu os primeiros anos de vida,

em cidade pequena o cidade grande.

Em nossas lembranças haverá sempre um circo.

circo pobrezinho de chão de poeira,

de lona furada, sem cores,

de bicicletinhas para equilíbrio.


Sempre guardaremos a lírica de boas lembranças,

a saudade gostosa do primeiro encontro com o circo,

jamais desfeita de nossa memória e de nosso coração…

Nada há mais delicioso que o primeiro espetáculo de circo…

Nada mais"!...








Autor: Wanderlino Arruda

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Dura Vida dos Ateus em um Brasil Cada Vez Mais Evangélico


Por ELIANE BRUM


O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
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 - Você é evangélico? – ela perguntou.
 - Sou! – ele respondeu, animado.
 - De que igreja?
 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

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O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
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Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
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- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.

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Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

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A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
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Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
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Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
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É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
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Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
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Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
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Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
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Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
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Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
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Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. 
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ELIANE BRUM Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance -Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma HistóriaSeverina e Gretchen Filme
Estrada.
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